Roberto Batata, uma saudade que nos fez conquistar a América.
- Vinícius Fortunato
- 19 de mai. de 2019
- 8 min de leitura
No último dia 13 de maio, o Cruzeiro homenageou em suas redes sociais Roberto Batata, um dos maiores jogadores da história azul celeste, porém, quem é Roberto Batata?
Roberto Aparecido Monteiro, para quem não conhece, é o camisa sete mais famoso que vestiu a camisa celeste, quis o destino que ele não tivesse uma vasta carreira, foram apenas cinco anos como profissional, mas nem por isso ele deixou de marcar seu nome na história do Cruzeiro e ser até hoje um dos maiores jogadores da nossa história.

Roberto Aparecido Monteiro, mais conhecido por Roberto Batata.
Filho do seu Geraldo e da Dona Judite, caçula de sete irmãos, só por aí já se pode imaginar o carinho que todos tinham pelo garoto. Segundo sua irmã Elge, o Roberto era uma criança rechonchuda, gordinho mesmo e nem de longe lembrava o ponta direita veloz e ousado que mais tarde faria tanto sucesso.
Sua história no futebol iniciou igual a muitos, no futsal. Jogou pelo América ainda no infantil. O caçula queria seguir os passos dos irmãos Geraldo e Otávio que apesar de não chegarem ao sucesso do irmão mais novo também foram atletas profissionais. Geraldo teve mais destaque, ele inclusive fez parte da Seleção Mineira que venceu o River Plate por 1x0 na inauguração do Mineirão. Ao lado de craques como Dirceu Lopes, Tostão, Jair Bala, o ponta direita que naquela época fazia parte da equipe do América inspirava o caçula, que mais tarde viria a superá-lo e por coincidência ou não do destino também seria ponta direita.
Seu primeiro contato com o futebol de campo foi no time amador do Banco Real, mas logo se transferiu para a base do Cruzeiro e já no início, todos que presenciavam, diziam que Roberto tinha nascido para ostentar as cinco estrelas em seu peito. No Cruzeiro, Roberto Monteiro virou Roberto Batata, apelidado pelo treinador João Crispim, que treinou o Cruzeiro em 1971, muitos diziam que seu apelido vinha do seu gosto exagerado por batata frita, porém sua irmã Elge diz que era apenas porque ele era gordinho e que inclusive este apelido viria desde a infância.
Em 1968, ainda na base celeste, Batata conquistou seu primeiro título, o campeonato Mineiro Juvenil. Promovido ao elenco profissional o jovem ficou sem espaço, disputava posição com um tal de Natal. Apelidado de Diabo Loiro, Natal dispensa apresentações, campeão brasileiro de 1966 com Dirceu, Tostão e companhia, era unanimidade na posição, isso fez com que Roberto Batata fosse emprestado ao Atlético de Três Corações.
Já no Atlético de Três Corações Roberto Batata disputou o Campeonato Mineiro de 1970, segundo registros fez dois gols, um contra o Sport e outro contra o Uberlândia. Teve uma atuação de destaque no clube de Três Corações, que apesar do time recheado de jovens fez uma campanha solida, ficando com a nona posição no campeonato que contou com trinta equipes. Durante esta rápida passagem no sul de Minas, Batata conheceu Denise, que viria mais tarde se tornar sua esposa, com quem teve seu único filho, Leonardo.
Em 1971, Natal foi negociado com o Corinthians, o Diabo Loiro se despedia do Cruzeiro e deixava vaga a camisa 7 e a ponta direita celeste. Embora o time celeste se despedisse de um dos seus maiores pontas direita, nossa camisa sete não se sentiu solitária por muito tempo. No dia 20 de janeiro de 1971, estreava pelo time profissional do Cruzeiro Roberto Batata. Apesar da derrota por 1x0 para o Peñarol, a estreia de Batata foi elogiada por Tostão, era nítido a afinidade que o jogador estava formando com o Cruzeiro.
Daí para a frente só sucesso, Batata fez parte do time Pentacampeão Mineiro (1972 a 1976) que por sinal é o último penta mineiro que o Cruzeiro conquistou. Ao todo foram 281 partidas disputadas e 110 gols marcados, com uma média de 0,39 ele ocupa até hoje a vaga de 11º artilheiro na história do Cruzeiro.
Apesar do pentacampeonato, o Cruzeiro amargou dois vice-campeonatos seguidos no Campeonato Brasileiro, em 1974 perdemos para o Vasco (assaltados pelo senhor Armando Marques) e em 1975 para o bom time do Inter, que contava com nomes como Falcão, Carpegiani e Figueroa. Era nítido a frustação, o Cruzeiro tinha um time fantástico, comandado pelo Príncipe Dirceu Lopes, infernizava seus adversários com dois pontas endiabrados, Joãozinho, o Bailarino e Roberto Batata e todo seu vigor físico, no meio campo o maestro Zé Carlos, o jogador que fez o grande Wilson Piazza virar zagueiro, na lateral a potência de Nelinho e ainda contava com grande matador Palinha no comando de ataque, sem dúvidas um dos melhores times que o Cruzeiro já teve. Estava na hora de um título maior, o time merecia mais que apenas campeonatos mineiros.
Foi então que nos deparamos com o ano de 1976. O Cruzeiro não aceitava outro revés, o time era bom demais para amargar segunda colocação mais uma vez e para mudar esta sina, a competição escolhida era a tão sonhada Libertadores da América. Até então o único time brasileiro que havia vencido a competição era o Santos de Pelé, mas para quem fez seis no time do Rei, nada podia nos amedrontar. O primeiro adversário foi nosso algoz de 75, mais uma vez o Internacional de Porto Alegre seria nosso adversário. Em um dos jogos mais espetaculares que o Mineirão tem em seus registros, o Cruzeiro venceu o Inter por 5x4, apesar de não marcar gols no jogo, Roberto Batata participou como titular. Nos jogos seguintes o Cruzeiro não teve piedade, um duplo 4x1 contra Olímpia do Paraguai e Sportivo Luqueño também do Paraguai, outra vitória pelo Inter lá em Porto Alegre por um convincente 2x0. Terminou a primeira fase com cinco vitórias e um empate, fazendo com que o clube celeste terminasse quatro pontos a frente do segundo colocado. Batata fez uma primeira fase discreta em relação a gols, apesar de ser titular em cinco dos seis jogos disputados marcou apenas um gol e amargou uma expulsão contra o Olímpia no Paraguai.
A campanha de forma invicta levou o time celeste ao grupo 1 da Semifinal, desta vez os adversários seriam a LDU de Quito e o Alianza Lima do Peru. Contra os equatorianos o Cruzeiro sobrou, 4x1 no Mineirão e 3x1 em Quito.
Eis que o Cruzeiro viaja a Lima para enfrentar o Alianza. Em um trecho extraído do livro “Futebol nos Embalos da Nostalgia” do nosso saudoso Plinio Barreto, enquanto andava pelas ruas de Quito, Batata comprava presentes para sua querida Denise e seu filho Leonardo, entre uma compra e outra ele falava sobre a angustia e necessidade de marcar um gol, apesar da confiança do treinador Zezé Moreira já havia tempos que ele não ia às redes, fato nada comum para o 11º artilheiro da historia do Cruzeiro. Já em Lima, o fim do primeiro tempo contra o Alianza mostrava o quanto o jogo estava complicado, um teimoso 0x0.
Começa o segundo tempo e o placar insiste em se manter, o time peruano faz jogo duro, até que aos 19 minutos da etapa complementar brilha a estrela do filho do seu Geraldo. Roberto Batata abre o placar, fez o primeiro dos quatro gols que o Cruzeiro viria a fazer. Como o destino é cruel às vezes, quem poderia dizer que aquele seria o último gol que ele faria em sua vida, talvez se soubesse teria comemorado mais, teria abraçado um por um e seus companheiros teriam direito de se despedir.
A viagem de volta a BH foi cansativa, mas a saudade da mulher e filho era muito maior que o cansaço. A chegada em BH só serviu para que ele fosse até seu apartamento no bairro Sion. A intenção dele era pegar seu carro e convidar seu vizinho, Dirceu Lopes para o acompanhar nos mais de 200 km que ele iria percorrer para amenizar a saudade que sentia. Novamente o destino entrou em ação e assim quis que Dirceu estivesse tratando seu joelho no hospital Felício Rocho. Imaginem, a tristeza poderia ter sido muito maior. Sendo assim por volta do meio dia daquele fatídico 13 de maio de 1976, Batata entrou solitário no seu Chevete e adentrou a rodovia Fernão Dias, com a intenção de saciar essa saudade absurda que sentia do seu amor, infelizmente quanto mais ele avançava no caminho, mais distante ele ficava. Em uma das curvas o ponta direita sucumbiu ao único adversário que ele não conseguiu driblar, o cansaço. Batata acabou cochilando ao volante, colidindo seu carro na traseira de um caminhão. Acabava neste momento a história de um dos maiores jogadores da história celeste.
Os dias que vieram após a tragédia foram de grande tristeza. Batata foi velado com honras merecidas no salão do Barro Preto, no lugar em que merecia estar, por tudo que fizera pelo time que ele defendeu com tanta paixão. Do Barro Preto o cortejo rumou ao cemitério do Bonfim, a procissão era seguida por milhares de pessoas, grande maioria cruzeirense, mas a dor era tão grande que atleticanos e americanos se juntaram ao luto, fato provado pela presença de Reinaldo, um dos maiores ídolos do rival Atlético, fez questão de prestar sua ultima homenagem ao seu amigo cruzeirense, não era hora de rivalidade, afinal Minas Gerais perdia um de seus mais talentosos jogadores.

Cortejo fúnebre de Roberto Batata que saiu do Barro Preto até Cemitério do Bonfim.
Assim como a vida tem que seguir, o Cruzeiro também seguiu em frente. A tristeza ainda tomava conta do coração de todos, mas o time celeste tinha de toda forma conquistar a América, trazer a taça para o Barro Preto em homenagem ao seu ponta direita. O último jogo da segunda fase era muito importante, mesmo de luto o Cruzeiro precisava vencer novamente os peruanos do Alianza Lima, uma derrota faria os dois times empatarem em pontos e colocaria em risco a ida da Raposa à final.
Uma semana depois do falecimento de Batata o Cruzeiro entrava em campo novamente. Antes do jogo mais homenagens, ao lado do gramado os jogadores estenderam a camisa sete, a banda da PM tocava sua marcha dedicada à Batata. O jogo começa e apesar de tanta tristeza o Cruzeiro parecia jogar com doze jogadores e ao final da partida a maior homenagem que ele podia receber, vencemos o jogo por 7x1. Logo após a partida, todos jornais da época noticiavam que era um pacto feito entre os jogadores para homenagear seu companheiro de time, anos depois em um depoimento ao Esporte Espetacular Nelinho disse que a ideia não era fazer os sete gols, tanto que ele mesmo teve a oportunidade de fazer o oitavo. Finalizou a bola como ele gostava, na entrada da área e dada a distância do gol e o efeito que a bola pegou o gol era certo, mas caprichosamente ela pegou no travessão e o jogo acabou. Sim meus amigos, tinha que ser sete, ele merecia esta homenagem, merecia que este jogo ficasse para sempre lembrado como o jogo em que o Cruzeiro fez sete gols para homenagear um de seus maiores camisa sete.
Curiosamente, na Libertadores, Roberto Batata jogava com a camisa 14, a 7 ficou com Jairzinho devido a numeração fixa que a libertadores exigia.
A caminhada do Cruzeiro teve seu capítulo final contra o River Plate, no jogo de desempate em Santiago, no Chile. Joãozinho cometeu a irresponsabilidade mais comemorada da história do futebol. O Cruzeiro venceu o jogo e logo após o apito final os jogadores se ajoelharam no gramado, fizeram uma oração ao amigo, agradecendo por tudo e acima de tudo dedicando a vitória a ele.

Momento de Oração dos jogadores após o titulo da Libertadores em 1976.

Roberto Batata nos deixou em seu auge como jogador, em 1975 teve sua primeira convocação a seleção. Jogando no Mineirão, do qual ele conhecia todos os atalhos, ele foi titular e anotou dois gols na vitória sobre a Venezuela. Seu companheiro de time Jairzinho, o furacão da Copa, apontava ele como seu sucessor na seleção e todos falavam da grande chance que ele tinha de disputar a Copa do Mundo de 1978. Imaginem só, Nelinho e Batata juntos novamente, fazendo a dobradinha na direita, dessa vez na Seleção Brasileira, não é difícil de afirmar que seríamos campeões, mesmo com toda falcatrua dos argentinos naquela copa.
Bom, o destino quis que o brilhante camisa sete celeste encerrasse a carreira precocemente aos 26 anos de idade. O Cruzeiro perdeu um de seus maiores jogadores, mas ganhou um grande intercessor, que durante anos e anos está lá de cima, mexendo seus pauzinhos para que o Joãozinho tivesse a ideia de bater a falta do título, que o Veloso soltasse a bola nos pés do Marcelo Ramos, que a bola escorregasse das mãos do goleiro do Sporting Cristal, para que a barreira se abrisse no chute do Giovane e por tantos e tantos momentos que de alguma forma a gente sabe que mesmo lá de cima, o Batata se transforma no décimo segundo jogador e nos ajuda a vencer.

“Nós seremos, nós seremos, campeões em Santiago, como em 76”. Que o espírito do Batata nos abençoe sempre, vamos mais uma vez vencer em Santiago, ele merece.
VAMOOOOOOO CRUZEIROOOOOOOOOOOO!
Uma singela homenagem ao saudoso Roberto Batata, o maior camisa sete que já vestiu esta camisa.
Por: Vinicius Fortunato - @fortunatoxD